Rio de Janeiro vira a casa da NFL no Brasil em uma semana que foi muito além do Maracanã
Ravens e Cowboys fizeram história no Maracanã, mas o verdadeiro espetáculo começou dias antes, quando o Rio de Janeiro passou a respirar futebol americano
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Por: Marcus Rovere
Durante décadas, quando se falava em Rio de Janeiro e esporte, algumas imagens pareciam inevitáveis: Maracanã lotado, futebol, samba, praia, Carnaval e uma cidade acostumada a receber alguns dos maiores eventos esportivos do planeta.
Na última semana, porém, uma nova camisa entrou definitivamente nessa paisagem. A NFL chegou ao Rio de Janeiro.
E não chegou apenas para colocar Baltimore Ravens e Dallas Cowboys frente a frente. A liga transformou a cidade em uma grande celebração do futebol americano, aproveitando justamente uma das maiores forças do Rio: sua capacidade de transformar um evento esportivo em uma experiência turística.
O Rio como parte do espetáculo
Quem viajou para acompanhar o NFL Rio Game percebeu rapidamente que a partida era apenas o ponto alto de uma programação que começou vários dias antes.
Entre 20 e 27 de setembro, a NFL espalhou ativações por diferentes regiões da cidade. Houve bola gigante para fotos com o Pão de Açúcar ao fundo, a Super Bowl Gallery no Shopping Leblon, com o Troféu Vince Lombardi e os 60 anéis de Super Bowl, estruturas temáticas na Lagoa e em Copacabana, NFL Shops, atividades na orla e a NFL Rio Run.
O próprio Rio de Janeiro entrou na campanha. A Riotur tratou o evento como parte do calendário da cidade, enquanto a prefeitura montou uma operação especial envolvendo transporte, segurança, trânsito, saúde e limpeza para receber o público. Segundo a prefeitura, a expectativa era justamente aproveitar o potencial turístico de um evento que reuniria grandes franquias, um estádio histórico e uma das cidades mais conhecidas do mundo.
Isso criou uma experiência diferente para quem chegou ao Rio.
O torcedor não precisava esperar o domingo para sentir que estava em um evento da NFL. As camisas de diversos times começaram a aparecer pelas ruas, nos hotéis, restaurantes, bares, praias e pontos turísticos.
O Rio, como costuma fazer com seus grandes eventos, transformou a chegada da NFL em uma festa.
E então veio o Maracanã
No domingo, 27 de setembro, faltava apenas completar a história.
O Maracanã recebeu 72.792 torcedores para o primeiro jogo de temporada regular da NFL na história do estádio. Foi o maior público registrado no estádio em um evento esportivo em 2026 até aquele momento. A partida ainda terminou com um roteiro digno de cinema: vitória do Baltimore Ravens por 34 a 31, definida no último segundo com um field goal de 56 jardas de Tyler Loop.
Mas talvez o mais importante estivesse nas arquibancadas.
Havia torcedores de diferentes estados brasileiros e de outros países. A venda de ingressos alcançou fãs de 67 países, mostrando que o Rio não recebeu apenas um jogo para o público local, mas um evento internacional.
E havia uma imagem particularmente simbólica: camisas de Ravens, Cowboys, Packers, 49ers, Chiefs, Patriots e tantas outras franquias dividindo espaço com Flamengo, Vasco, Fluminense, Botafogo e outros clubes brasileiros.
O futebol americano já não parecia um visitante. Parecia parte da casa.
O esporte que deixou de ser novidade
Existe uma diferença importante entre dizer que o futebol americano está crescendo no Brasil e perceber que ele já criou uma comunidade própria.
A NFL chegou ao país oficialmente com dois jogos em São Paulo, em 2024 e 2025. O Rio Game de 2026 foi o terceiro jogo de temporada regular da liga no Brasil e o primeiro realizado no Rio de Janeiro. A própria NFL afirma que o país já possui mais de 36 milhões de fãs, tornando o Brasil um dos mercados internacionais mais importantes da liga.
Esse crescimento não aconteceu apenas porque a NFL decidiu investir no Brasil.
Muito antes de existirem grandes eventos oficiais, lojas temáticas, jogos em estádios brasileiros e campanhas nacionais, existiam pessoas produzindo conteúdo.
Gente que acordava cedo para acompanhar jogos, traduzia notícias, explicava regras, analisava draft, discutia escalações, criava podcasts, administrava páginas de torcedores e passava horas tentando explicar para um público brasileiro por que aquele esporte era tão apaixonante.
Foram anos construindo uma ponte entre a NFL e o torcedor brasileiro.
Os creators também fazem parte dessa história
Talvez um dos momentos mais interessantes de uma semana como essa seja justamente observar esses criadores reunidos.
Pessoas que durante anos produziram conteúdo praticamente dentro de uma "bolha" agora se encontram presencialmente, cobrem o mesmo evento, participam de podcasts, fazem entrevistas, encontram seguidores e dividem o mesmo estádio.
O fenômeno não se limita a grandes veículos.
A comunidade brasileira de conteúdo sobre futebol americano cresceu a partir de blogs, sites, podcasts, canais no YouTube e redes sociais. A FN Network, por exemplo, surgiu em 2015 como Fumble na Net e atualmente reúne mais de 50 produtores independentes de conteúdo sobre esportes americanos.
Criadores como Felipe Laurence com o perfil oQuarterback, Antony Curti que começou com o The Concussion e hoje é comentarista do SporTv, Matheus Ornellas, Pepê Narduchi e tantos outros representam uma geração que ajudou a manter o esporte vivo diariamente no Brasil, muito antes de a NFL transformar o país em uma prioridade internacional. Ornellas, por exemplo, atua como criador de conteúdo, narrador e announcer, enquanto Narduchi construiu o Endzone Brasil e já acumulou experiências cobrindo eventos da NFL presencialmente, hoje sendo comentarista na ESPN. Ele também abriu o espaço para Alex Porto, que ganhou destaque e hoje também é comentarista no SporTv. Vinicius Grossi que a frente do Viajante Esportivo não só fala de esportes americanos como leva torcedores para assistir os jogos in loco.
Gabriel Campos que teve o Hail Mary e hoje comenta sobre Flag Football, Gabriel Martins do O Cara dos Sports, a equipe do canal Zona Neutra, Ingridy Paim do 50 jardas, Betina Frank, a torcedora internacional do ano pelo Detroit Lions, Dan Lacalle que é uma estrela na cobertura de eventos hoje, sendo comentarista do DAZN, Lucyen que a frente do Interceptados é uma referências em copnteúdo com doses de humor, perfis independentes de cada time, como é o nosso caso, esses e tantos outros estiveram reunidos, representando também tantos outros que não conseguiram estar presente. Novos criadores surgem, como o excelente Papo de Jarda com Eric Piante, Henrique Bulio a frente do ProFootballBr, 4o_quarto com Bruna Ciarlo ou o popular Myttar que tem feito sucesso no twitter, o trabalho incrível do DrafteiBrasil, e tantos outros...
E isso explica uma cena cada vez mais comum: quando a NFL vem ao Brasil, esses produtores não aparecem apenas como espectadores. Eles fazem parte do ecossistema.
As próprias torcidas organizadas e páginas brasileiras das franquias promovem encontros, festas e eventos paralelos. Durante o Rio Game, comunidades de Ravens e Cowboys organizaram encontros pela cidade, reunindo torcedores e criadores de conteúdo.
É uma prova de que existe algo muito maior do que simplesmente consumir o produto NFL. Existe uma comunidade.
O Rio veio para ficar
A NFL poderia ter escolhido o Rio apenas como uma experiência pontual. Não foi isso que aconteceu.
A liga anunciou um compromisso de realizar pelo menos três jogos de temporada regular no Rio de Janeiro nos próximos cinco anos, além de manter investimentos em iniciativas como o NFL Flag e programas comunitários.
Depois de uma semana em que a cidade recebeu ativações, torcedores de dezenas de países, criadores de conteúdo, celebridades e mais de 72 mil pessoas no Maracanã, fica evidente que o Rio oferece algo difícil de reproduzir em qualquer outro lugar: a possibilidade de transformar uma partida em um evento turístico, cultural e esportivo.
São Paulo abriu a porta. O Rio escancarou.
E o Maracanã mostrou que o futebol americano encontrou espaço em um dos templos mais importantes do futebol mundial. Talvez essa seja a principal história deixada pelo Ravens x Cowboys.
Não foi simplesmente a NFL jogando no Rio, foi o Rio de Janeiro recebendo a NFL — e mostrando que o futebol americano já faz parte da cultura esportiva brasileira.
Depois de tudo o que aconteceu nessa semana, imaginar o Rio sem a NFL novamente parece cada vez mais difícil. Porque o jogo terminou. A festa, não.
Fonte: NFL.com; Prefeitura do Rio;